
Foto: Ilustração. Em Solonópole
, família de agricultores usa a "junta de boi"
, há 85 anos, para moer a cana-de-açúcar. Os animais são bem alimentados e substituídos a cada 3 horas para descanso
. Por dia
, são produzidas 200 rapaduras à moda antiga.
REGIÃO - A fumaça na fornalha pode ser vista de longe. O cheiro do "caldo" cozinhando também é sentido nas primeiras horas da madrugada
. É por volta de uma hora da manhã que os primeiros bois são amarrados pelo chifre para dar a tração da moenda.
O trabalho em ritmo lento vai até as 16 horas
. Paralelo a isso
, homens e mulheres se revezam nas caldeiras e formas para produzir a rapadura
. O cenário narrado parece algo do século passado, mas pode ser visto hoje no Sítio Veneza
. na zona rural de Solonópole.
O engenho por tração animal surgiu a partir da escassez hídrica, no século XVIII. Décadas depois, com o desenvolvimento tecnológico
, os animais foram substituídos por vapor
, diesel e eletricidade.
No entanto, a família Coelho mantém a tradição iniciada há 85 anos ininterruptos. O lucro do engenho é pequeno - ou talvez nem exista
. São fabricadas 200 rapaduras por dia. A carga, para 100 unidades
, é vendida entre R$ 600 a R$ 800
. O valor líquido, quando dividido entre todos os membros da família que trabalham no engenho, é pequeno.
Mas o que importa, para eles, é reunir a família no engenho. "É um momento de confraternização, de estreitar ainda mais os laços. Hoje o mundo está tão globalizado e tecnológico que quase não há mais interação entre os parentes", diz o agricultor Raimundo Nonato Coelho, que conduz os trabalhos no tradicional engenho de Solonópole.
As atividades são feitas em conjunto. Alguns alimentam os animais, enquanto outros transportam a matéria-prima no lombo do burro.
Na própria estrutura, um deles conduz os bois, enquanto o caldo segue por um cano por baixo da terra até chegar no tanque. O líquido vai para as caldeiras, onde o calor, misturando sem parar, vai dando a consistência necessária para ser levado às formas. Lá "descansa" até se tornar a popular rapadura. Enquanto isso, duas mulheres, de forma exaustiva, puxam e esticam a massa para fazer o alfenim (doce de massa branca).
O engenho foi construído em 1928 e produziu até 1932, ano no qual houve uma grande seca que afetou o cultivo de cana-de-açúcar e matou parte do gado. Dois anos depois, a fabricação artesanal foi retomada e nunca mais parou. Nem mesmo a chegada da energia elétrica na comunidade, em 1998, foi capaz de substituir o trabalho dos animais.
"De 1960 para cá, era ferro, mas antes era tudo de pau. Tudo de madeira. Não tinha parafuso. Era essa tradição. Sempre no boi. Acho que quando a gente parar, não vai ter mais em canto nenhum. É difícil. Aqui é só para manter a tradição. Tem até muito motor de engenho parado. Se quisesse, comprava, montava, mas a gente luta para manter como deixou meu avô", explica o agricultor Raimundo Nonato.
O costume de unir a família para moer a cana sempre foi um momento singular, mas que não gera lucro também para a família do agricultor Erasmo Carvalho. "Se botar na ponta do lápis, não dá rendimento nenhum. Mas a tradição faz a festa. Isso é a coisa melhor do mundo". Este, mesmo reconhecendo a agilidade dos engenhos "motorizados", romantiza o barulho da cana-de-açúcar quebrando.
"No engenho de pau, ouvia de longe", lembra. A ansiedade para reunir a família nesse período é maior nos últimos dois anos, já que o "inverno" ajudou na produção. "Teve anos de estiagem que fracassou muito. Do ano passado para cá, foi melhor", afirma a agricultura Lúcia Maria Coelho. A intenção é que os mais jovens continuem com este trabalho.
"Meus meninos, mesmo trabalhando fora, tentam ajudar", pontua a também agricultura Erivônia Fernandes da Silva. Ela ressalta o "bom tratamento" dado aos animais, sempre alimentados com ração para trabalhar por até três horas. Depois disso, a "junta de boi" é trocada por outros que estão descansados. "Sem os bois, não tem nada", garante o agricultor Manoel Cláudio Coelho.
Cultura - Do ponto de vista educativo, o historiador Sérgio Pinheiro acredita que esta tradição é importante para que os mais jovens percebam como era o trabalho na maioria dos engenhos até o século XIX. "É a preservação cultural. Muito raro encontrar um assim", conta.
Manter a tradição em detrimento do lucro não é uma opção considerada pela maioria. No Sítio Macacos, zona rural de Lavras da Mangabeira, o engenho da família Holanda, que já alcança dois séculos, se mantém de pé como o único no Município graças ao desenvolvimento tecnológico, já que iniciou com a tração animal, passou pelo motor a diesel e, hoje, tem moenda movida com energia elétrica.
Apesar do avanço tecnológico, o engenho mantém alguns processos "às antigas", como a produção do mel, rapadura, batida e alfenim. Lá, tudo é bem definido e as funções tradicionais do "cacheador", "caldereiro", "corta mel" e "trombador" permanecem como no século passado. Tudo é orquestrado por José Wilson, de 62 anos de idade, e que há décadas trabalha na produção de rapadura e doces. Tanta experiência lhe rendeu o título de mestre da rapadura.
"Antes de chegar a mestre, eu passei por todos eles
. Você precisa aprender tudo para se tornar um mestre", explica. No engenho em que trabalha, são fabricadas até 1.500 rapaduras por dia, que são vendidas para Várzea Alegre, Cedro e Icó. Diferente do engenho de Solonópole, este consegue gerar lucro, garante Wilson.
Por Antonio Rodrigues -VM.