Há
dentro de nós uma região pouco visitada, que muitos preferem não
penetrar. Um verdadeiro labirinto, espécie de abismo que chega a nos
amedrontar. A esfinge de Tebas ainda nos causa pavor embora seu enigma
tenha sido desvendado; perdura no homem (enigma outrora decifrado) sua
natureza enigmática - outra esfinge, muito pouco compreendida que fica a desafiar constantemente o ser humano.
Desde o nascimento até a morte, o homem vive envolto em
mistério. Ele sabe muito do que está fora dele (ciências, filosofia,
política, religião, tecnologia), no entanto conhece muito pouco de si
mesmo. O enigma é nosso interior, é nossa psique. Quantos
dragões nos devoram todos os dias! Não sabemos como enfrentá-los. São
poderosos demais, se alimentam de nossa energia, habitam o nosso ser, se
escondem nos porões do inconsciente. De repente as sombras nos povoam e
aceleram nossa ignorância.
Não há tempo para a
contemplação, a introspecção, o mergulho nos esconderijos da mente
humana. Sem falar que isso também pode ser perigoso, frente a frente com
os defeitos, com a imundície de nossos pensamentos, com a parte
obscura, pantanosa, temível. Uma região tão assim assustadoramente
complexa quem livremente desejaria conhecer?
Há quem diga
que viveríamos melhores se visitássemos mais vezes o íntimo do nosso
ser e saíssemos a passeio pela nossa mente. Entenderíamos
complacentemente nossos medos, perturbações, fantasmas, traumas.
Decifraríamos nossos enigmas e não seriamos devorados pelos monstros que
perscrutam as noites, os sonhos e aterrorizam nossa paz.
Uma estranheza (de nós mesmos) nos habita “uma parte de mim é multidão:
outra parte estranheza, solidão”, assim diz o poeta. O que é estranho
foge da ordem, do controle, da lógica. Nosso imaginário dispõe de uma
força psíquica que evolui quando acionada (e nós nos negamos a esse
exercício). E o poeta volta a falar “traduzir-se uma parte na outra
parte – que é uma questão de vida ou morte – será arte?”.
A
esfinge devoradora cotidianamente nos engole, não deciframos todas as
partes do nosso ser (um reino misterioso), continuamos aflitos,
ansiosos, cheios de medo e superstições aterrorizantes. A parte obscura
está lá no porão, nos causando delírio, vertigem, e vez por outra,
quando menos esperamos, nos visita. Ao entrar no nosso sono
simbolicamente diz quem somos nós.
Acaso existirá alguém
(outro Édipo) que possa corajosamente enfrentar a esfinge não mais
tebana, mas psíquica? Tal ação resultaria na motivação de atitudes
positivas, nos mostrando que tudo está dentro de nós, só nos resta
conhecer e ouvir o que nos quer dizer, como nos fala Deus e a natureza. O
grande lance, caro leitor, é saber que há um lugar de repouso dentro de
você mesmo.
Texto da professora Socorro Pinheiro Pinheiro.